Na incubadora com... Paulo Portas
Na incubadora com... | 16-07-2025
No atual contexto de transformação geopolítica e geoeconómica, a Europa e, em particular, Portugal, enfrentam desafios significativos que exigem uma reflexão profunda e uma ação estratégica. No seu testemunho, o Dr. Paulo Portas sublinha a necessidade urgente de reformas estruturais para garantir a competitividade e a relevância da Europa no palco global, bem como as prioridades que Portugal deve adotar para se reforçar no contexto europeu.
P.: Qual pode ser o papel estratégico qua a Europa e Portugal podem assumir no âmbito da transformação geopolitica e geoeconómica em curso ?
R.:: A Europa ou faz reformas ou declina. É uma potência geoeconómica (o maior bloco exportador do mundo) mas já não é uma potência geopolítica (carece de defesa autónoma).
Isso é muito revelado pelos últimos acontecimentos: em 2015 os europeus eram parte essencial do acordo de supervisão nuclear do Irão; uma década depois a UE não é parte diplomática relevante entre Israel e o Irão e é mesmo afastada do tabuleiro pelos EUA Mesmo em termos económicos o risco é grande: a UE envelheceu, tem menos produtividade e menos inovação.
É preciso virar a página da anemia económica europeia e fazer as reformas que Draghi recomenda. É possível e é desejável. Quando a Europa quer, a Europa consegue: dois dos maiores êxitos económicos europeus de 2024 são proezas europeias - a Airbus superou a Boeing e o Ozempick permitiu a mais espetacular valorização de uma farmacêutica em tao pouco tempo. Ambos os êxitos são filhos da inovação…
P.: Que riscos geopolíticos emergentes mais o preocupam atualmente?
R.: Os riscos geopolíticos que mais receio são:
- a crença da nova administração Trump num ‘mundo de forças’ e não num mundo de alianças;
- em consequência, o abandono da Ucrânia pelo aliado americano;
- a possibilidade de Putin testar o artigo 5o da NATO num país báltico ou do norte (membro da UE e da NATO);
- a réplica do ‘direito de invasão’ (exercido pela Rússia e hoje tolerado pela América) na Asia, em especial Taiwan;
- e em termos geoeconómicos a tendência para um protecionismo sistémico que empobrece todas as Nações.
P.: Que reformas estruturais Portugal deveria priorizar para ser mais competitivo?
R.: Portugal: sistema de justiça, sistema de justiça, sistema de justiça… e enfrentar com uma radical coragem dos moderados os três outros temas que nos penalizam: o défice demográfico, o défice de produtividade e o deficit de inovação…e o IRC, claro.