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NA INCUBADORA COM... ANA PIRES

NA INCUBADORA COM... ANA PIRES

2024-06-06

Na décima edição de "Na Incubadora com..." convidámos Ana Pires, Investigadora INESCTEC, Astronauta Análoga para partilhar um pouco sobre jornada profissional, o reconhecimento e Programa PoSSUM, Missões Análogas que participou e a Indústria Espacial em Portugal.

P.: Como é que uma investigadora da geotecnologia do mar entra no “mundo do espaço”?

R.: Assumo que existe realmente uma viagem do fundo do Mar até ao Espaço, e que esta interação Espaço-Terra-Mar é um tópico que me fascina. Existem treinos realizados por diversas agências espaciais dentro de água e isso não é de todo descabido, pois existem muitas similaridades entre estes dois ambientes extremos, e um deles é a flutuabilidade dentro de água que permite a um(a) humano(a) ou um robot testar as suas capacidades em circunstâncias parecidas com a microgravidade. E o meu caminho foi percorrido nesse sentido, desde trabalhar na área das tecnologias do mar, para depois estabelecer pontes entre os recursos geológicos com os colegas da robótica, e até chegar ao presente onde em equipas multidisciplinares trabalhamos estas questões mais da geo-robótica, das geo-tecnologias e das geociências planetária. Aliás a minha formação de base é Engenharia Geotécnica com um doutoramento em Geociências, daí ter esta paixão pelos georecursos, e a minha investigação ser no sentido de como usar a robótica e as tecnologias para a exploração subaquática e espacial. Mas tudo isto ainda é um novo mundo, um novo “planeta” a descobrir, e estou ainda a percorrer este caminho.

P.: Qual foi a “chave” que lhe permitiu integrar um grupo restrito de investigadores, que a levou a ser a primeira mulher portuguesa a obter o diploma de cientista-astronauta no PoSSUM Scientist Astronaut Qualification Program, apoiado pela NASA?

R.: Quando em 2018 fui selecionada para este fantástico programa achei que seria engano. Mas rapidamente percebi que era uma realidade e foi então que me tornei a primeira mulher portuguesa candidata a cientista-astronauta. Foi na classe 1802, que conheci pessoas de vários países, com diversos backgrounds, mas com a mesma vontade de aprender e de trazer esse know-how para os seus próprios países e suas instituições. O International Institute for Astronautical Sciences (IIAS) inclui um programa muito interessante na área da exploração espacial e que prepara os investigadores para voos suborbitais. Não existe uma receita para ser aceite ou não, mas julgo que o principal fator e o mais importante, será ter paixão por ciência e não ter medo de enfrentar os seus próprios limites e de ir sempre à descoberta! Todos os dias são uma aprendizagem para o ser humano, num planeta como é o planeta Terra, com tanto ainda por descobrir e para contribuirmos com soluções tecnológicas e inovadoras!

P.: Teve uma “oportunidade única” passada no habitat da Mars Desert Research Station (MDRS), da Mars Society posteriormente nos Açores na missão CAMões. Em síntese, qual é o principal objetivo destas missões, e que experiência colheu num cenário seguramente hostil e de isolamento. 

R.: Sinto que a experiência de estar confinada e isolada com mais 4 colegas (Estados Unidos e Índia) no habitat da Mars Desert Research Station localizada no deserto do Utah e gerida pela Mars Society, foi uma aprendizagem para o que se ia seguir na minha vida (mas já contarei a seguir). Foi realmente uma oportunidade única de viver em “Marte na Terra”, acordar todas as manhãs com o desejo de querer fazer ciência, testar tecnologias, trabalhar em equipa, realizar actividades extraveiculares (EVAs), aprender mais sobre geologia planetária, e muito mais. Acima de tudo esta missão permitiu trazer conhecimento para o nosso país. Esse conhecimento e essa experiência serviu para me ajudar a conceptualizar a primeira missão análoga em Portugal, missão CAMões (Caving Analog Mission: Ocean, Earth and Space exploration) que decorreu dentro de um tubo de lava da Gruta de Natal na Ilha Terceira. Estes treinos em ambientes extremos têm uma grande importância e preparam os astronautas para as verdadeiras missões espaciais, mas também para aprenderem mais sobre este tipo de estruturas geológicas que poderão ajudar a proteger os humanos da radiação, micrometeoritos e temperaturas extremas. É realmente na Terra, que nos preparamos para ir ao Espaço. E isto é incrível. Como o nosso planeta nos oferece locais tão similares com o que poderemos encontrar em Marte e na Lua. A missão CAMões, da qual tive a honra de ser Comandante, foi liderada por uma mulher, e contou com o apoio fundamental da Associação Os Montanheiros e com o Centro de Robótica e Sistemas Autónomos do INESCTEC (ambas as instituições líderes do projeto). Os principais resultados desta missão estão neste momento a serem publicados em diversos jornais científicos e num livro da Springer Nature, dedicado à missão. A região dos Açores apresenta-se como um cenário ideal para treinos profissionais na área da exploração espacial e geologia planetária.

P.: O tema da industria espacial parece ser algo “distante”. Existe já a construção de uma rede de instituições nacionais, empresas  privadas e publicas que possam desenvolver a prazo, um cluster de empresas no setor aero espacial em Portugal?

R.: Não me parece distante, quando Portugal já provou que tem potencial, os melhores cientistas, as melhores indústrias e instituições que já contribuem para a exploração espacial e a participar até em missões espaciais e projetos. Alguns desses cientistas até com já cargos consideráveis na Agência Espacial Europeia (ESA). Desde satélites, comunicações, até à exploração humana, desenvolvimento de tecnologias e robótica, medicina aeroespacial, e ainda a realização da primeira de muitas missões análogas em Portugal e na região dos Açores! O cluster já existe, não formalmente, mas potenciado pela Agência Espacial Portuguesa, Portugal Space. No entanto, tem que existir um maior reforço da economia espacial no nosso país, uma aposta e um investimento por parte do Governo, para que finalmente Portugal tenha o seu primeiro ou primeira astronauta. Isto só poderá acontecer se continuarmos a investir na educação, na ciência, em projetos ligados à exploração humana, de forma a preparar os(as) nossos(as) jovens para um futuro recrutamento da ESA. Sinto que o meu papel é ajudar nesse caminho, com os “pés bem assentes em Terra”! O INESCTEC, a minha instituição tem tido um papel fundamental neste sentido com vários colegas na área da investigação, na área da exploração subaquática e espacial, a contribuírem em diversas frentes para esse caminho de descoberta! Vamos a isso!